Depois de todos os arranjos do destino, lá estavam eles. Ela, alta, daquelas mulheres grandes que não são para qualquer um. Ele, meio desarrumado, vestido informalmente, como quem tivesse acabado de sair da aula... e acabara mesmo!
Foram beber uma cerveja por volta das 18:30, apesar do planejado ser bem mais quente, se é que me entendem. O sujeito, cavalheiro, pagante dos luxos daquela noite luxuriosa, se surpreendeu com o valor exorbitante pela bebida, mas, como não queria sair sentindo-se um verdadeiro medíocre, resolveu pedir uma, nem que fosse para não abalar sua auto-estima. Os gastos seriam bem recompensados, apesar de seu bolso chorar até agora.
As conversas transcorreram com normalidade, apesar de alguns olhares suspeitos da parte da atendente do estabelecimento. Os olhares ficaram em segundo plano, quando aconteceu o inesperado, chegaram ao local um grande amigo dele e sua respectiva senhora. Mesmo com a bela surpresa, os planos eram bem outros, ali estava presente amizade sincera e desinteressada, algo dos céus, coisa totalmente discrepante em relação à baixeza do que estava proposto. O que fez com que um casal conduzisse o outro ao cinema, seu objetivo primeiro, e partissem do bar... Não sem que ela, parte do casal partidor, tivesse a idéia de seduzir a atendente. Porém, para tudo há um limite, e os interesses da noite eram bem diferentes deste.
Chegaram ao outro bar. O clima entre os dois, misto de colega e casal, esquentava à medida em que bebiam. Os corpos se aproximavam com mais intensidade às 21:00 horas. Havia toda uma expectativa nos momentos que estariam por vir. Aliás, o momento, ou “a momenta”, liga para o celular dele... estaria entre os dois em breve. A ligação se dá após algumas mensagens ousadas enviadas para ela, pequenos estímulos para aumentar a probabilidade da vinda. E, sim, acredite, pode-se dizer com toda a tranqüilidade que estaria entre os dois, porque, o que se sucederia não está no dicionário com toda a grandiosidade que pede a descrição do fato.
Ela chega! A surpresa aguardada pelo casal, o elo que faltava neste triângulo que quebraria os paradigmas de toda uma sociedade cristã e burguesa. Entra pelo ambiente exibindo suas pernas longilíneas e seus trajes comportados. Seu visual de menina séria contrasta com aquilo que o casal sabia sobre ela, especialmente ele, um profundo conhecedor de seus gostos.
Ainda bebem, e conversam, e se beijam... é, se beijam! Ele beija uma, depois, beija a outra. Criando constrangimento e curiosidade aos demais presentes no local. E eram demais, mesmo... não deveriam estar lá. Aliás, ninguém deveria estar lá, só os três. Pensando inteligentemente nisso, a mais jovem propôs a ida para um ambiente mais reservado, o que foi prontamente aceito pela outra moça e recebeu muda anuência do excitado rapaz. Ao deixarem o recinto, sob olhares muito interessados, o moço, dono do mundo naquele momento, recebe os mais sinceros cumprimentos da boemia local... o olhar de aprovação daqueles senhores ficará guardado na memória.
As duas, unidas por ele, que se interpunha entre os corpos, logo estariam sem barreiras. Nem dele, nem de vestes. A viagem até o local pensado por ele demorou, mas pareceu ser em segundos, tamanhas as fantasias do trio.
Ao chegar lá, após breve, e irrelevante, tratativa comercial, todos se dirigiram ao quarto designado. A ante-sala dos infernos veria algo que aquelas paredes ruborizariam ao contar. E vejam que aquele local foi erguido para este tipo de relações, no entanto, até os atos mais libertinos têm um código de moral, alguma normalidade de acontecimentos. Naquela noite, aconteceria o não corriqueiro... nem para os três, nem para os outros viventes da Terra.
Depois de 10 minutos de arrumações, ele coloca vigorosamente a língua na boca de sua mais recente conhecida, enquanto a moça séria do bar resolve mostrar quem é, desnudando o corpo da beijada com avidez de amante e destreza de profissional. Enquanto ele beijava a boca, a outra beijava os seios da mulher que seria iniciada em um novo mundo de prazeres. Estava lançada a semente da obscenidade... ele não precisava mais estar lá. Agora, elas poderiam se acertar ao natural. E era assim que ele queria, dar um pouco de autonomia àquelas alvas damas, que horas depois sairiam de lá, como se nada tivesse acontecido. Pois, que fique claro, tudo aconteceu! E eu sei.
A pornografia é tamanha... a gana com que se tocavam as duas dava todo sentido ao citar que se devoravam. É, com os toques elas supriam as fomes de suas almas. Procuravam com malícia as reentrâncias de suas femininas formas, com os dedos penetravam fundo, como se quisessem tocar o que ninguém mais tocou. Não era um instante apenas de tara, mas de pertencimento, uma era da outra, por completo, naquele momento. E dele, não precisam... e, a elas, ele nem queria interromper. Ver o toque e as vontades também era vontade dele, também era sexo o mirar dos atos.
Olhou-se pelos espelhos e pensou as piores coisas possíveis. Aquilo tudo era loucura vexatória, uma doideira pecaminosíssima invejável para os excluídos do momento e das sensações. Ali estava o que há de mais sexual no mundo, os instintos mais baixos, reminiscências do tempo em que o homem ainda era bicho.
E ele lançou-se sobre elas, como se abocanhasse as duas presas fáceis. Fáceis por estarem absortas, por estarem concentradas uma na outra, fáceis por quererem ser vitimadas, fáceis por ele as querer assim... e por elas assim também quererem.
Seu toque era amplo, democrático, tratava com respeito, admiração e selvageria a ambas. Sem que ali se hierarquizasse nenhuma das relações. O mundo dos prazeres, despido de crenças e moral, também deixava de fora qualquer vivência pregressa. O momento falava mais alto que as lições da vida. Aquilo era a vida... aquilo, sim. Antes de tudo apenas sobreviveram. Ali, ele era rei. Um nobre e suas despudoradas senhoritas de pele clara e rosto enrubescido.
O êxtase tomava a todos por completo, e repetidamente, sem que as pausas tirassem o ardor do momento, que deveria ser eterno. Mesmo que findasse logo, os três sairiam de lá imortais. Imortalizados um na retina do outro... levando ao túmulo aquela vivência plenamente reeditável por estes mesmos, como em um pacto de anjos caídos, em que somente eles pudessem desfrutar destes prazeres carnais.
O fim se deu! Às portas das 2 da manhã o inevitável desfecho ocorreu. Cada um saiu do local com o cheiro do que fora feito, tendo um taxista afortunado como testemunha de seus rostos desavergonhados. O silêncio trilátero dizia mais do que qualquer relato minucioso. Acontecera o indizível! E o imperguntável... especialmente para aquele que deveria apenas fazer a entrega dos corpos exaustos.
Após tudo isso, ele saiu de lá outro, saiu de lá o “Outro”. Saiu de lá possuído e possuidor. Cavaleiro errante nas trevas da noite. Sabedor de que nenhum punguista estaria vestindo capa mais poderosa do que aquela, do mal, que o cobria naquela data.
Ao homem, instrumental máximo da luxúria, o Supremo Decaído não faltaria naquela noite de esplendor negro. O nascido de Maria agora viveria entre o bem e o mal... mais do que nunca. E para sempre!
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